Hoje dei uma entrevista para a jornalista Verônica Lima da Rádio Câmara da Câmara dos Deputados em Brasília, sobre o meu livro Gênios da Humanidade - Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente que será publicado pela DBA Editora em parceria com o banco BNP Paribas e o Grupo Carrefour.
Falei sobre a negação da civilização africana  e suas bases que formaram a Europa e a civilização ocidental ancorada na escravidão, colonialismo e racismo.
Carlos Eduardo Machado,   historiador, professor e pesquisador da USP
Carlos Eduardo Dias Machado, historiador, professor municipal formado pela USP.
Apontei como a civilização ocidental, branca e eurocêntrica, escondeu, omitiu, mentiu, silenciou e aniquilou diversos indícios e provas de que a maior parte das grandes descobertas matemáticas, arquitetônicas, biológicas, médicas, químicas e muitas outras, que permitiram e impulsionaram nossos avanços científicos e tecnológicos até hoje e, até mesmo, a própria organização do que entendemos por ocidente, têm origem nas sociedades africanas. Expliquei como nos casos em que essa origem não podia ser apagada de nenhuma forma, as descobertas, os fatos e as informações foram omitidos, distorcidos e manipulados de todas as maneiras possíveis para negar as capacidades do povo negro, para que o povo negro fosse/seja mantido no lugar em que o ocidente branco deseja mantê-lo: de inferior, incapaz, não dotado de inteligência e capacidades. Desvelei diversos discursos e estratégias da narrativa branca ocidental para isso, como, por exemplo, atribuir, então, tudo aquilo que não pode ser roubado dos povos africanos a feitos e descobertas pertencentes a uma África branca (embranquecida pelas narrativas e representações dos dominadores) e, até mesmo, atribuídas a extraterrestres! – quem nunca viu filmes e outras representações sobre o Egito só com pessoas brancas, não é mesmo? Aliás, melhor perguntar: quem sabe que o Egito fica na África e que sua população é negra? Por outro lado, quem nunca ouviu dizer que as pirâmides do Egito foram construídas por extraterrestres? Porque no imaginário ocidental, parece claro que povos negros não seriam capazes de tamanha sabedoria e engenho, não é mesmo?
Engenho, conhecimento e tecnologia dos antigos povos negros? Pro ocidente branco não.
Engenho, conhecimento e tecnologia dos antigos povos negros? Pro ocidente branco não.
Essas manipulações e omissões formam uma imagem não só sobre a África, mas, sobretudo, sobre o próprio ocidente, num discurso que remonta ao processo de escravidão/colonização e ao neocolonialismo até os dias de hoje, e que associa inteligência aos povos brancos europeus e desatrela as noções de inteligência/intelectualidade/capacidade da ideia de negritude e do próprio povo e culturas africanas. Tudo isso no movimento perverso de reiterar e perpetuar o racismo pela noção de que os povos africanos seriam intelectualmente inferiores, para, em nome de um projeto de poder branco, designar a esse povo e a essas pessoas seus lugares de inferioridade no mundo e assim seguir dominando, explorando, expropriando e se reafirmando enquanto civilização e em seu projeto civilizador/explorador, como fazem até hoje, ainda depois da diáspora que promoveram na África.
Antiga cidade de Loango, ou Lovango, no século XVI, na região conhecida hoje como Congo.
Antiga cidade de Loango, ou Lovango, no século 16, na região conhecida hoje como Congo.
A cidade de Timbuktu ou Tumbuctu, fundada no século 5, onde foi criada a PRIMEIRA UNIVERSIDADE DO MUNDO, construída, segundo historiadores, antes do século 12.
Cidade Tumbuctu, fundada no século 5 no Mali, onde foi criada uma das mais antigas universidades do mundo, construída, segundo historiadores, antes do século 12.
Nenhuma nunca nos mostrou: o povo africano antigo desenvolvendo saberes e tecnologias muito antes de quaisquer outros povos, inclusive dos povos gregos e romanos, a quem é atribuída, embusteiramente, a “origem da civilização”. Pude ver que, posteriormente, essas tecnologias e saberes foram absorvidos inclusive pela própria cultura grega e que estes faziam, frequentemente, diversas referências explícitas, em seus ritos, registros e tradições, aos deuses e personalidades africanas e aos conhecimentos e saberes herdados ou compartilhados com esses povos, e que esse dado é frequentemente – e propositalmente! – apagado pelas comunidades cientificas modernas e suas narrativas sobre o desenvolvimento das sociedades e do conhecimento e da tecnologia; pude ver a rigorosa organização de cidades imensas nos impérios e reinos africanos (sim, cidades! com toda arquitetura e organização de uma cidade como as que são mostradas nos livros de História como engenhos exclusivos das sociedades europeias ao final do feudalismo – dado que também foi apagado pelas narrativas modernas sobre África!); pude saber da existência de várias comunidades africanas antigas com desenvolvimento de escrita, contrariando a informação comumente e convenientemente divulgada sobre a predominância da oralidade na África (e a gente sabe que o desenvolvimento da escrita ainda é considerado uma prova de “evolução” de uma sociedade e seus indivíduos, assim como a negação ou o apagamento de uma tradição de escrita é uma importante forma de dominar e aniquilar um povo e uma cultura), assim como soube de um monte de outras informações que contrariam aquela imagem amplamente difundida dos povos africanos como “bárbaros”, “incultos”, “incivilizados” e “desorganizados” que viviam em tribos se matando e comendo uns aos outros o tempo todo.
Tradicionais penteados afros: conhecimento antigo de geometria fractal desenvolvido pelos sábios povos africanos
Tradicionais penteados afros: conhecimento antigo de geometria fractal desenvolvido pelos antigos e sábios povos africanos.
Este tema é de extrema necessidade e urgência! Porque o mais importante de tudo, o que há de mais significativo e de uma potência transformadora incrível nesse trabalho, é o caminho que alguns pesquisadores negros (assim como as mulheres) já estão trilhando de reconstrução das narrativas, mitos fundantes, memórias, histórias e sociogêneses (e da própria realidade) do mundo contemporâneo ao nos mostrar que, ao contrário do imaginário que nos foi imposto sobre as populações africanas suas civilizações, tecnologias e costumes (que eram, sempre foram, de uma organização e complexidade tremendas), a cultura e as sociedades africanas não compõem apenas uma CONTRIBUIÇÃO a instituição das sociedades modernas ocidentais, mas são elementos FUNDANTES de tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO, que produzimos e que nos identifica hoje como sociedade e como ocidente.
Um trabalho fundamental de reescrita da História e de descolonização radical que está apenas começando.

Representação de guerreiros do Reino Zulu, que lutaram e resistiram bravamente contra as invasões holandesas e inglesas a seus territórios durante o neocolonialismo do século 19.
Representação de guerreiros do Reino Zulu, que lutaram e resistiram bravamente contra as invasões holandesas e inglesas a seus territórios durante o neocolonialismo do século 19.
Links pra saber mais:
Artigo “Ciência negra: uma proposta para a descolonização do conhecimento”, de Carlos Machado, pro site Mundo Negro:

E-book Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente à venda:

Matéria sobre Carlos Machado e sua pesquisa no portal Geledés:

Curso EaD: INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA AFRICANA
Matéria do jornal BioHoje do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Paraná
Aqui está o link do site e quando for ao ar posto aqui para vocês!
http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/

Obrigado Ana Paula Martins do blog Das Lutas!
https://daslutas.wordpress.com/2014/09/18/ciencia-tecnologia-e-inovacao-africana-e-afrodescendente/
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